CARTA ABERTA AOS ASSESSORES/AUXILIARES DA CORREGEDORIA GERAL DA JUSTIÇA

Hoje vamos falar de despedidas.

A vida é feita de encontros e partidas. Cedo nos despedimos do colo materno — a mais dolorida de todas as separações. No meu caso, embora não tenha sido um habitué do regaço que dividia com meus irmãos, senti profundamente o pouco do que usufruí.

Despedimo-nos dos amigos de infância para, muito tempo depois, sentir, em um reencontro fortuito, que a conexão já não faz o mesmo sentido; já não toca o coração como antes, ainda que revivamos a saudade que outrora foi intensa.

Despedimo-nos de quem amamos quando a morte finalmente chega. Essa dor, que ainda não experimentei pessoalmente, já testemunhei em outras pessoas, concluindo o quanto é profunda.

Vivemos sob a eterna sensação da despedida, sobretudo quando aqueles ao nosso entorno envelhecem. A partida, que antes parecia longínqua, mostra-se agora logo ali, na próxima esquina, na curva seguinte.

Faço estas breves reflexões, porque, próximo de encerrar meu biênio à frente da Corregedoria-Geral de Justiça, tudo para mim ganha as cores da saudade, de despedida, que não será um “até logo”, pois cada um deverá seguir seu próprio destino, pois que, afinal, assim é a vida: marcada por encontros, desencontros e despedidas.

Sedimentamos relacionamentos, apegamo-nos às pessoas e chegamos a pensar, no início, equivocadamente, que a convivência será eterna — até nos depararmos com o fim iminente.

Após tudo o que vivemos, o que restará é a saudade; para mim, que sou sensível ao extremo, ela se apresentará lancinante, cortante, dolorida.

Confesso, no entanto, que, com a saudade já se apossando de mim, sinto enorme dificuldade em descrevê-la. Tentar fazê-lo é como o desafio de descrever o vento: impossível, inobstante o sintamos. Sentimos o vento, mas não o vemos. Não o vendo, assim como ocorre com a saudade, faltam-nos os contornos para uma descrição.

Da saudade, só sei dizer que dói e causa um aperto na garganta; sou, afinal, como todos sabem, marcadamente sensível.

A saudade será mais intensa quando eu me lembrar de nossas reuniões, nas quais discutíamos projetos com a mesma entrega com que sorríamos de tudo, como se a vida fosse uma grande festa; e era. Mas uma festa realizada em benefício do jurisdicionado, para o qual trabalhamos incessante e obsessivamente.

Vamos nos despedir, sim. Mas não esquecerei os mimos deixados sobre minha mesa, sempre acompanhados de bilhetes gentis, carinhosos, leais e, sobretudo, humanos.

Não esquecerei a expectativa de ver meus assessores entrarem, um a um, em minha sala, para compartilharmos uma conquista ou traçarmos a estratégia para um novo desafio.

Não esquecerei nossas “aventuras”: as viagens que fizemos juntos em busca de soluções, em cada comarca, que pudessem ajudar o cidadão, tornar sua vida um pouco melhor, enfim.

Não esquecerei que compartilhamos dores e inquietações em nosso afã de servir.

O mundo, entrementes, continuará girando. De mim restará, em um futuro próximo, apenas uma foto na galeria dos ex-Corregedores. Nela, poder-se-ia gravar uma frase que sintetize quem sou: um homem que ousou sonhar e acreditar; que pensou em fazer o bem e encarou o poder com responsabilidade.

Nossa despedida vem em doses; cada dia, um dia a menos. Vivo a contagem regressiva para o inevitável.

Após o encerramento, virá a saudade que, em pessoas com a minha sensibilidade, será eterna — pois eternas também foram nossas realizações.

O Selo Diamante, o reconhecimento nacional do nosso Tribunal, é a materialização do que construímos.

A saudade será a tradução dos sentimentos que ficaram sem o teto da Corregedoria-Geral e que agora se abrigarão sob outro espaço: o da memória. Ela será maior por resultar da interrupção de um projeto que funcionou, fruto da sintonia entre magistrados e servidores comprometidos com a excelência.

Como lidamos com a Justiça, a despedida aqui ganha contornos de missão cumprida, somada ao vazio de quem deixa o front de batalha rumo a novos desafios.

Deixamos aqui nossa maior virtude: o reconhecimento de que, embora o trabalho jurídico seja técnico, sua execução é humana. Por isso erramos, acertamos, vibramos e nos abraçamos. E entregamos nossa alma para bem servir.

Trabalhamos como um só corpo, uma só mente.

Muitas vezes, um simples olhar de vocês era o aviso de que a “prosa” precisava mudar; um olhar, que substituía o documento escrito, representava, também, a vírgula que faltava ou o ponto de interrogação que me levava a refletir.

A saudade será imensa porque aprendi a conhecer a marca de cada auxiliar: a sensibilidade, a voluntariedade, a perspicácia, o destemor e a ponderação. Mas, fundamentalmente, testemunhei a lealdade e o cuidado que tiveram comigo, protegendo-me e aconselhando-me para que eu errasse o mínimo possível.

Meus assessores não foram apenas colaboradores; foram guardiões da minha lucidez.

A despedida, para mim, é como fechar um livro que ainda teria muitas páginas, mas cujo final antecipado não impede o reconhecimento de que a obra foi grandiosa.

O ciclo se encerra. As portas da Corregedoria agora se fecham para mim — não literalmente, decerto. Vocês seguirão seus caminhos; eu seguirei o meu. Vocês ainda têm muito a realizar; eu sinto que falta pouco para concluir minha trajetória. De cada um ficará uma lembrança, traduzida num detalhe, num abraço ou num afago.

Reafirma-se o que disse Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Espero que, nesta breve convivência, por meio dos meus discursos e da minha conduta, eu tenha ajudado vocês a refletir sobre a vida. Afinal, “nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas” (frase atribuída Cora Coralina).

É isso.

PRIORIDADE EXTRAORDINÁRIA – PESSOA IDOSA

A minha obsessão pela Produtividade Extraordinária persiste.

Nada tira o meu ânimo, a minha vontade de continuar atuando com os olhos voltados para o cidadão, porque, afinal, foi essa a história que construí em quase 40 anos de dedicação à magistratura do Estado.

Eu, minha valorosa assessoria, juízes e servidores fizemos muito em nossa gestão, o que nos levou a uma produtividade expressiva (a maior da história) colocando o TJ/MA no panteão onde pontificam os Tribunais mais operosos do país.

Tenho convicção, inobstante, de que muito mais ainda pode – e precisa – ser feito, sempre com os olhos voltados aos jurisdicionados, destinatários finais de nossas ações.

Forte nessa convicção, ou seja, de que muito mais precisava ser feito pelo jurisdicionado, todos testemunharam que, ao ser escolhido pelos meus pares para dirigir a Corregedoria-Geral de Justiça do Maranhão, elegi como metas números 1, 2 e 3, a Produtividade, disso resultando os seus diversos Eixos: Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Secretaria Extraordinária, Oficial de Justiça Extraordinário e Contadoria Extraordinária.

Desse trabalho diuturno, incessante, obsessivo, resultou o que parecia um sonho: o Selo Diamante de Qualidade do Conselho Nacional de Justiça. Digo um sonho porque a Produtividade vinha sendo o grande desafio para que alcançássemos o galardão, vez que, nos demais eixos (governança, transparência e dados e tecnologia), vínhamos de uma gestão anterior exitosa, tendo esbarrado no Selo Ouro, exatamente em face do Eixo Produtividade, que não havia recebido a atenção que efetivamente reclamava.

Nada obstante o Selo Diamante, para mim ainda há uma dívida a ser resgatada com a sociedade, que condiz com os processos ditos prioritários, que não receberam a rigorosa atenção em gestões anteriores, pelos mais diversos motivos, em que pese a prioridade prevista em lei, bastando consignar, para dar respaldo a essa afirmação, que nunca se fez sequer um levantamento dos processos em andamento com idoso como parte, como fizemos na nossa gestão, aos quais adiante faço menção.

Diante dessa constatação, ou seja, de que aos processos prioritários a Corregedoria-Geral da Justiça nunca dispensou a atenção merecida, lançamos, no dia 18 de novembro de 2025, o “Eixo Prioridade Extraordinária — Idoso”, dentro do projeto Produtividade Extraordinária, instituído pelo Provimento nº 39/2025.

A iniciativa, em parceria com o Comitê de Atenção à Pessoa Idosa do Tribunal de Justiça do Maranhão, tem como objetivo reduzir o tempo de tramitação das ações com prioridade legal que envolvam pessoas idosas, no afã de resgatar a nossa dívida com essa parcela da sociedade.

À época do lançamento, estimava-se, à falta de mais precisos, a existência de cerca de 50 mil ações envolvendo idosos em tramitação, estimativa que, após a análise detalhada das informações, se revelou modesta. Na verdade, atualmente, o acervo total registra 170.499 ações não criminais envolvendo pessoas idosas, o que representa 23% do total de 742.914 processos em curso, cujas demandas apresentam tempo médio de tramitação de 686 dias; eu disse, tempo médio.

Durante o evento de lançamento, aqueles que dele participaram hão de lembrar que destacamos a necessidade de combater o etarismo e garantir maior celeridade às demandas da população idosa, ressaltando a importância de enxergar o aspecto humano por trás dos processos.

O Provimento nº 39/2025 acima mencionado estabeleceu metas para o primeiro grau a partir deste ano, determinando que, até o fim de 2026, os processos ajuizados até 2024 representem, no máximo, 10% dos casos pendentes.

Também foram fixados prazos para redução do tempo médio de tramitação: até mil dias (abril de 2026), 700 dias (dezembro de 2026) e 400 dias (dezembro de 2027), cujas metas serão monitoradas pelo nosso Núcleo de Inteligência, através do Painel de Indicadores da Corregedoria.

Importante realçar, para que se tenha a dimensão social do projeto, no que se refere ao perfil dos jurisdicionados, que os dados coligidos pela Corregedoria-Geral da Justiça apontam que 86% dos autores possuem mais de 60 anos (147.554 processos), enquanto 14% têm mais de 80 anos (22.945), cumprindo destacar que, em relação à fase processual, 68% das demandas encontram-se na fase de conhecimento (115.242) e 32% na fase de execução (55.257).

Além disso, visando estimular nossos magistrados, foi instituído o Selo Unidade Judicial Amiga da Pessoa Idosa, a ser concedido às Unidades que cumprirem, cumulativamente, as metas estabelecidas quanto à redução do acervo processual e do tempo médio de tramitação.

Com mais esse eixo, a Corregedoria-Geral da Justiça reafirma o seu compromisso com a Produtividade Extraordinária e, por consequência, com o jurisdicionado maranhense, especialmente a pessoa idosa, muitos dos quais veem a vida se encerrar, sem que sua demanda chegue a bom termo, o que, definitivamente, é uma manifesta injustiça, que buscamos, agora, reparar.

É isso.

NÃO TENTE CONVENCER UM FANÁTICO A MUDAR DE OPINIÃO

Principio essa crônica dizendo uma obviedade: o fanatismo político é um dos fenômenos mais intrigantes dos nossos dias. A constatação que o título encerra já vem tarde nas minhas crônicas, porque há muito senti necessidade de refletir sobre essa questão, sobretudo quando tive que sair de grupos de WhatsApp exatamente por não contemporizar com o fanatismo — que cega e que mata.

Nesse sentido, em face das diversas vezes nas quais tentei abrir os olhos de um fanático, acabei por concluir que as minhas tentativas se converteram em uma auto-humilhação, pois saí derrotado fragorosamente. Era como se eu tentasse explicar a Teoria da Relatividade a um felino. Eu terminava sempre falando sozinho, frustrado com a incapacidade do fanático de assimilar as coisas mais simples. Depois percebi que as minhas tentativas resultavam frustradas porque eu sempre acreditei que o fanático, mesmo sendo fanático, poderia, num rasgo de lucidez, operar no campo das ideias. Mas, depois vi, eles têm um grave deficit cognitivo. Eles não se importam em ouvir. Eles não querem ouvir. Eles se alimentam da intransigência. Eles operam no mundo da fé cega; acreditam, até, num salvador político.

Com um fanático, em face do seu “salvador”, se você trouxer um fato, mesmo documentado, ele diz que é armação do inimigo. Se você mostra uma fala grave do líder dele, ele diz que a tiraram de contexto. Se a prova for muito contundente, ele diz que é perseguição política — e por aí vai.

Tenho dito, fruto das experiências vividas no meio de radicais de extrema, quer de direita, quer de esquerda — e eles existem, todos sabemos —, que não é de bom tom tentar demover um fanático num almoço em família, por exemplo, e muito menos numa mesa de bar, porque corremos o risco de romper com a família e, até, sofrer uma agressão física.

O meu conselho, pois, em face de tudo que tenho vivido, é só um: não tente convencer um fanático. Deixe o lunático com os seus botões. Não perca tempo tentando fazê-lo mudar de opinião. Ensine seu gato a rugir, seu cavalo a falar, dê aula de inglês ao seu cão, pois, nesse desiderato, a possibilidade de ser bem-sucedido é maior do que tentar mudar a opinião de um fanático.

E não adianta supor que ele vai mudar sozinho, que a decepção com o ídolo dele, por exemplo, o fará mudar de opinião. Não vai. Ele não vê o mundo como uma pessoa normal enxerga. Ele poderá, até, ser traído e, ainda assim, vai manter a opinião; e, se você tentar fazê-lo ver a realidade, ele vai reagir. Com essa reação, ele passa a desqualificar quem vê como inimigo, na tentativa de defender quem ele elegeu como seu ídolo político.

A esperança que tenho é que o tempo opere um milagre, pois só o tempo pode curar um fanático. Talvez a perda de um ente querido. Talvez uma doença grave. Talvez uma grave injustiça. Talvez. Não se tem certeza porque, afinal, estamos tratando de fanatismo.

O fanático não se importa com o argumento certo. Ele tem uma força interna, uma vontade irresistível de permanecer acreditando nas coisas em que acredita. Ele pode até ouvir o argumento certo. Esse não é o problema. O problema é que já decidiu que não quer acreditar.

Creia, o fanático não aceita ser contrariado. Ele não quer discutir. Ele já chega defendendo o seu ponto de vista. Se ele discutisse, estaria aberto ao convencimento. Como ele apenas defende o ponto de vista — o que é diferente —, ele já está convencido. O debate, para ele, não é algo civilizado. É campo de batalha, por isso está sempre armado.

Nos últimos anos, acreditando no poder da razão, tentei demover alguns fanáticos. Não gostaram. Mesmo porque mudar de opinião é muito nobre, e não espere um ato de nobreza de um fanático. Diante de um fanático empedernido/entorpecido/radicalizado, só há uma solução: recuar, dar um passo atrás. E isso não é covardia. É higiene mental.

É isso.

O BANQUETE DOS SEM-MODOS

“Tenham modos, meninos!” Era essa uma das expressões que eu e meus sete irmãos mais ouvíamos de nossa mãe durante a infância e a juventude. Nas mais diversas circunstâncias da vida, o comando materno significava: “não se aposse do que não lhe pertence”, “não fale de boca cheia”, “não se meta em conversa de adultos”, “não fale alto”, “respeite os mais velhos” e, principalmente, “seja honesto”.

Tudo isso sem direito a réplica. Não eram pedidos; eram comandos herdados de geração em geração. Palavras que traduziam, ao mesmo tempo, uma ordem e uma sentença. Sem contraditório. E, quando ousávamos esboçar qualquer tentativa de reação, vinha o xeque-mate definitivo: “Calado!”

Criados dessa forma, passamos, já na vida adulta, a atribuir àquela advertência um sentido ainda mais amplo. “Ter modos” passou a significar “ter honra”, “dar-se ao respeito”, “comporte-se com dignidade”, “preserve o próprio nome” e “seja um exemplo para a família”.

Era – e, para muitos que pensam e agem como eu, continua sendo – um comando sobre o qual não se tergiversava. Só havia duas alternativas: obedecer ou obedecer. Crescemos conscientes de que existiam limites bem definidos entre o nosso comportamento e o espaço alheio. Foi nessa cultura que fui forjado. Foi sob esses valores que me tornei homem, exerci cargos públicos e, principalmente, criei meus filhos.

O problema é que muitos crescem e passam a conviver com pessoas que jamais aprenderam a ter “modos”. Por fraqueza moral ou ganância, deixam-se seduzir pelo banquete oferecido pelos desavergonhados. Nesse cenário, não são poucos os que alcançam o poder, sobem os degraus da fama e são tragados por uma grave amnésia moral. Esquecem-se dos “modos” que aprenderam – ou que deveriam ter aprendido – dentro de casa. É que, no topo, convivendo com as facilidades proporcionadas pelo exercício do poder, a etiqueta muda de figura.

Os sem-modos de hoje estão por toda parte, principalmente encastelados no poder, onde se lambuzam sem qualquer constrangimento. Esquecem-se de que o nome limpo continua sendo – metaforicamente falando -, o maior legado que podem deixar para os filhos, muito mais valioso do que qualquer patrimônio material amealhado ao longo da vida.

Outrora obedientes aos pais, agora desprezam as lições que deles receberam. Não se importam se são assunto sussurrado nas rodas de conversa ou nos restaurantes que frequentam; pouco lhes importam os olhares de reprovação que despertam. Vivem sob a lógica de que, com dinheiro, tudo é possível e tudo se resolve.

De falcatrua em falcatrua, esbaldam-se em jatinhos particulares e em rega-bofes regados a vinhos e uísques, nos ambientes mais sofisticados. Deixam-se seduzir por companhias femininas que sequer dominam o idioma nativo, circunstância que lhes permite tratar, sem qualquer constrangimento, de eventuais esquemas destinados à dilapidação do patrimônio público ou ao tráfico de influência, na esperança de escapar das agências de controle. Embora saibam que, excepcionalmente, isso possa não acontecer, confiam na histórica leniência com que, tantas vezes, os tubarões da criminalidade têm sido tratados.

Para os sem-modos, a moral converteu-se em artigo de luxo e o desvio de conduta passou a ser apenas um detalhe. O pudor foi revogado pelo decreto das vantagens pessoais obtidas a qualquer custo. Afinal, acreditam que, estando no poder, a impunidade continuará sendo a regra, e a punição, uma quase quimera institucional que funciona apenas de forma pontual, destinada a disfarçar a nossa incapacidade de tratar todos os delinquentes com a igualdade proclamada pela Constituição.

Os homens públicos que se entregam às orgias frequentemente noticiadas pela imprensa – e que a todos nos envergonham – comportam-se como crianças mimadas que nunca aprenderam a ter modos. Com uma diferença fundamental: no caso das crianças, basta, muitas vezes, um grito dos pais para contê-las. Os sem-modos, porém, viciados em trapaças e vantagens ilícitas, já não recuam nem com o grito de toda uma sociedade, simplesmente porque o caráter, nesses casos, foi definitivamente engolido pela ganância.

É isso.

Lourival Serejo: Uma vida a serviço da Justiça e da Literatura

Sempre gostei de expressar – por escrito ou verbalmente – o que sinto e penso. Agradecido à natureza pelo privilégio de poder fazê-lo, já escrevi e refleti sobre os mais variados temas, especialmente sobre o ser humano. Por isso digo, não sem certa pretensão, que, passados quase cinquenta anos de exercício profissional – como advogado, procurador, promotor e magistrado -, e tendo eleito o homem como matéria-prima das minhas inquietações, especializei-me em gente.

Nessa condição, imagino não ter dificuldades em prestar uma homenagem a alguém que conheço bem e que se destaca entre os mortais – sendo ele imortal – por qualidades que marcaram sua trajetória de homem público. Afinal, o homenageado sempre se notabilizou, como magistrado e como escritor, pela sensibilidade de ao menos tentar compreender o mundo e as pessoas que nele habitam.

A propósito desta homenagem, devo dizer que a minha percepção sobre o ser humano me faz concluir, com certa obviedade, que há pessoas que passam pelo mundo sem nada construir, ao sabor do vento, na base do “deixa a vida me levar; vida leva eu”. Há outras tantas, porém, que pertencem à categoria dos que viveram para fazer história e deixar um legado às futuras gerações. Nesse seleto grupo incluo o homenageado, por quem nutro especial admiração.

Esta reverência, importa dizer, não se deve apenas à sua aposentadoria da magistratura, após uma profícua e exemplar ação judicante, mas ao legado humano e intelectual que ele confia à sociedade. Um legado que, claro, não se encerra aqui: este momento é o marco final de apenas uma atividade funcional, pois a sua atuação mais sedutora, a literária, persistirá para reafirmar a exata dimensão de sua inteligência, sensibilidade e permanência.

Vianense de quatro costados, Lourival Serejo veio ao mundo para emprestar brilho às letras e ao Poder Judiciário do Maranhão. Como magistrado, trilhou um caminho inconcusso que o levou, por mérito, às presidências do Tribunal Regional Eleitoral e do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão. No TJ/MA, vale registrar, assumiu o comando justamente no momento mais severo da pandemia de Covid-19, cabendo-lhe, naquele cenário incerto, reinventar, quase da noite para o dia, o funcionamento da Justiça estadual. A despeito de todas as adversidades, a instituição, sob sua liderança, manteve-se ativa, servindo ao cidadão maranhense – fato de que resulta meu mais profundo reconhecimento.

Agora, após vários anos dedicados à Magistratura, Lourival Serejo despede-se da toga deixando um exemplo difícil de igualar: conseguiu reunir, na mesma caminhada, a firmeza do julgador sóbrio, equilibrado e perspicaz, e a delicadeza do escritor de obra fluente. Diante dessa constatação, cabe consignar que, se há homens públicos cuja relevância se apaga ao deixarem o cargo, há aqueles – caso do homenageado – que, por suas múltiplas facetas, jamais abandonam a cena principal; serão sempre lembrados pelo que construíram e, sobretudo, pelo muito que ainda haverão de produzir.

Como magistrado, Lourival Serejo construiu uma história pautada pelo conhecimento, pela autoridade moral e pelo compromisso com o Direito, tornando-se referência para todos nós – em especial para os que tiveram o privilégio do convívio próximo. Contudo, nunca é demais reafirmar, há nele uma dimensão que transborda o jurista respeitado: a do escritor. A literatura permitiu-lhe expor, sem as amarras do poder institucional, sua humanidade, inquietação, visão de mundo e a rara capacidade de transformar vivências em arte verbal.

Por tudo isso, presto esta homenagem ao jurista, ao escritor, ao pai, ao esposo, ao avô, ao cidadão e, acima de tudo, ao grande amigo Lourival Serejo, na certeza de que a sua aposentadoria marca tão somente o término de um ciclo público, jamais o fim de sua obra. Se o cargo fica para trás, sua autoridade intelectual permanece – agora com ainda mais tempo para fazer o que sempre fez com maestria: pensar, escrever e compartilhar.

É isso.

O MENINO QUE DESPREZEI

O fato que vou narrar aqui, do qual fui o próprio protagonista, merece detida reflexão, porque tem a ver com empatia, solidariedade e sentimento de culpa.

Pois bem. Dia 30 do mês passado, por volta das 17h30, saí, como de costume, para fazer exercícios na Avenida Litorânea. Por volta das 18h30, encerradas as atividades, entrei no carro para retornar para casa. Assim que liguei o carro, fui surpreendido por um menino, de aproximadamente 12 anos, batendo no vidro, insistentemente; percebi que vendia balas.

Demorei um pouco para sair, enquanto conectava o bluetooth. Olhei para o menino sem lhe dar importância e me irritei com sua insistência em chamar a minha atenção. O garoto insistiu, e eu me fiz de besta, como se diz quando se age com indiferença. Confesso que o encarei com certo desprezo e segui viagem, para, depois, me dar conta, já a caminho de casa, que o rostinho dele traduzia um apelo que eu, tomado pela insensibilidade e falta de empatia, não valorizei.

Pelo retrovisor, vi-o retomar a caminhada, com a caixinha de balas debaixo do braço. Próximo ao famigerado “Bacabeirinha”, fui tomado por uma forte inquietação – uma sensação estranha se apoderou de mim -, acompanhada de um sentimento de revolta interior pela forma como desprezei o adolescente. Incomodado, com um certo sentimento de culpa, decidi retornar para me redimir do que considerei, no mínimo, uma descortesia.

Não tive dificuldades em encontrá-lo, afinal, tinha observado a direção que seguiu, na companhia de outro adolescente, do qual só me dei conta quando os vi pelo retrovisor do carro ao deixar a Litorânea. Encontrando-os, parei o carro, abaixei o vidro do lado do passageiro e os chamei. Os dois se aproximaram com um contagiante sorriso no rosto. O que carregava a caixa de guloseimas logo manifestou admiração pelo meu carro, para, com um sorriso afável, traduzir a sua admiração:

– Que carro lindo, tio! Disse, como que estupefato.

Prosseguiu com as observações, sempre com um afável sorriso emoldurado pelo rosto:

– Seu carro é muito limpo!

E foi adiante:

– Olha o tamanho dessa tela! Disse, chamando a atenção do colega que, igualmente atônito, arregalou os olhos, lançando um olhar de espanto em direção ao amigo, saindo com essa em seguida:

-Tio, que camisa linda! O senhor é surfista?

Como não sorrir de uma indagação dessas, sendo eu um senhor de 72 anos?

Dirigi-me, então, ao menino que vendia balas, o que desprezei na primeira tentativa de contato:

-Quero lhe ajudar. Você tem pix?

Ele respondeu que sim; mas do seu padrasto.

O outro, não se fez de rogado:

– O senhor vai me ajudar também?

Respondi:

– Claro que sim.

Em seguida, ansioso, completou:

– Quanto o senhor vai enviar?

Respondi:

-Tantos reais para cada um.

Arregalaram os olhos.

– Mas é muito, tio!

Eu disse:

– Não. Não é muito. Para vocês pode ser; para mim, não.

Enquanto tentava fazer o pix, o que vendia balas acrescentou, sem que eu perguntasse:

-Tou vendendo balas para ajudar na compra do material escolar. As aulas começam semana que vem e ainda não tenho nada.

Enquanto tentava acessar o aplicativo do banco, indaguei onde moravam. Responderam:

– Na Madre de Deus.

E acrescentaram:

– Viemos e vamos voltar a pé, porque não temos dinheiro para o transporte.

Pensei em levá-los em casa, mas decidi não fazê-lo, no entanto. Já era tarde e eu tinha compromisso às 19h30.

Um detalhe: eu, simplesmente, não acertei a senha do aplicativo do banco, pois havia trocado há poucos dias, por segurança. Mas anotei as chaves pix de ambos, e, chegando em casa, enviei a quantia prometida.

Esse fato pode não significar nada para muita gente. Para mim, nada obstante, significa muito, porque tem a ver, como anotei no preâmbulo, com empatia, solidariedade e culpa.

Sei que não resolvi os problemas daqueles meninos com a ajuda que enviei, afinal, o que eu pretendia mesmo era aliviar minha própria consciência, porque, nada justifica a minha reação inicial de desprezo diante de quem, depois percebi, merecia atenção, assim como muitos que desprezamos sem sequer lhes dar a oportunidade de se manifestarem.

É isso.

HAVERÁ SEMPRE QUEM LHE ESTENDA A MÃO

É sobre essa afirmação que pretendo refletir hoje.

Digo, desde logo, que, na maioria das vezes, as circunstâncias da vida impõem que cada um cuide de si. Por isso, na dor, na solidão e na tristeza, frequentemente não temos quem segure as nossas mãos, exceto – com raras exceções – as pessoas mais próximas. A mão estendida costuma aparecer apenas quando o pior já passou e fomos obrigados a caminhar sozinhos. Posso dizer, metaforicamente, que, no auge do naufrágio, o mar está sempre deserto.

Nos corres da vida moderna, o relógio e a pressa ditam o ritmo, tornando a solidariedade um luxo quase esquecido, pois cada um corre para o seu lado, com os olhos fixos no presente, a mente voltada para o futuro e a memória sobrecarregada por problemas que deveriam estar esquecidos no passado.

A verdade, sobretudo nos dias atuais, é que há uma multidão “curtindo” as artificialidades/superficialidades das redes sociais, mas omissa diante das necessidades do semelhante — para o qual, muitas vezes, bastariam uma palavra ou um afago, provas singelas de apreço e solidariedade, convindo destacar que, nesse cenário, não são poucos os que estendem as mãos apenas para cultivar a imagem de bondade e generosidade, aliviando a própria culpa, mas sem paciência ou estímulo para sustentar o “peso” da solidariedade por muito tempo.

A falta dessa mão é, para mim, a constatação de que, sejam quais forem as nossas dificuldades, o mundo continuará girando, indiferente à nossa paralisia. É assim que a banda toca. Outras vezes, quando a mão finalmente nos socorre, já vem tarde demais; serve apenas para enxugar o suor do rosto de quem aprendeu a se virar — ou ainda luta para se salvar — em um mundo onde cada um parece viver para si.

Apesar dessa constatação, mantenho a expectativa de que alguém possa estender a mão ao próximo. Estender a mão, em uma hora difícil, é reconhecer a existência do outro; sob a perspectiva da alteridade, é admitir que o próximo, mesmo sendo diferente de nós, é igualmente um ser humano, com suas fragilidades, dificuldades e necessidades.

Eu não sei andar sozinho, algo facilmente percebido por quem está ao meu entorno. Definitivamente, preciso de quem segure a minha mão, dada a minha reconhecida fragilidade. Nem sempre, no entanto, encontramos esse amparo. Esse meu sentimento é a reafirmação do óbvio: a gente precisa da gente. Para minhas expectativas, é incompreensível que alguém deixe a mão de outrem estendida sem tentar oferecer auxílio.

Há uma máxima popular que diz: “Se não houver quem segure a sua mão, coloque-a no bolso e prossiga a jornada”. No meu caso, não dá para prosseguir com as mãos nos bolsos. Minha expectativa, embora frequentemente frustrada, é a de que sempre haverá alguém disposto a me dar a mão.

Amparar, no sentido aqui empregado, não é literal. Segurar a mão é estar disposto a ouvir, a emprestar o ombro num momento de angústia, a compartilhar a dor e a enxugar as lágrimas quando elas insistem em cair. Dar a mão não é dizer frases clichês como “tenha fé”, “vai passar” ou “Deus sabe o que faz”. O que proponho é refletir sobre o aperto de mão que não oferece moedas ou mantimentos, mas solidariedade real. É a coragem de ficar ao lado quando todos relutam, compartilhando o sofrimento do próximo.

No sentido espiritual, a mão não serve necessariamente para puxar alguém do buraco de imediato. Ela serve para que a pessoa em dificuldade saiba que sua dor, por mais intensa que seja, não é uma sentença de solidão.

Para ilustrar a necessidade de superarmos o individualismo, trago uma história que li há algum tempo.

Dois grandes amigos saíram para tomar banho em um rio, mata adentro. De repente, surge uma onça. Ambos se preparam para correr.

Um deles se apressa em calçar os tênis, ao que o outro adverte:

-Não perca tempo com isso! Achas mesmo que os tênis te livrarão das garras do felino?

O amigo respondeu:

-Pode ser que não. Só sei que preciso correr mais do que você.

Ou seja: na hora do “salve-se quem puder”, o amigo optou por deixar o outro para trás. Assim tem sido a vida. No momento crucial, prevalece o “cada um por si”, reafirmando que nem sempre haverá mãos dispostas a nos socorrer.

Fica a constatação, à luz dessas reflexões: ser solidário e não abandonar quem precisa é o que ajuda a humanidade a se manter viva. É o que impede que o homem perca a fé no próprio homem.

É isso.

POR TRÁS DA ARROGÂNCIA

No próximo dia 17, às 19 h, na sede da Associação dos Magistrados (Calhau), lançarei o primeiro volume de uma coletânea de crônicas. São 123 textos selecionados de um vasto conjunto de reflexões produzidas ao longo dos últimos 50 anos. Confesso que esses escritos nunca receberam de minha parte a devida atenção; sua reunião em livro só foi possível graças ao insistente incentivo do advogado, intelectual e acadêmico Daniel Blume, a quem tributo meus mais efusivos agradecimentos. Este é apenas o primeiro passo: outros dois volumes de crônicas, além de dois dedicados a ensaios e artigos sobre pena, prisão e gente, serão publicados nos próximos dois anos, os quais já organizei, estando agora na fase de revisão.

Nessa perspectiva, ainda no segundo semestre, lançarei o primeiro volume de ensaios e artigos jurídicos fundamentados em minha experiência de 38 anos na magistratura. A obra, provisoriamente intitulada como A Dosimetria do Olhar: Ensaios Sobre Crimes, Penas e Gente (Volumes I e II), guarda estreita relação com o exercício da judicatura.

Os livros de crônicas (volumes I e II) adotam o título deste artigo: Por Trás da Arrogância. A escolha decorre de uma experiência amarga em minha trajetória pessoal e profissional — situação conhecida apenas por pessoas próximas, mas que agora exponho publicamente na apresentação desta primeira obra.

O prefácio do primeiro volume foi escrito pelo amigo, intelectual e presidente da Academia Maranhense de Letras, Desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa. Em um trecho marcante, ele destaca:

“É preciso entender que o autor não está dando conselhos, mas sugerindo e propondo desafios à tomada de consciência, para que todos desenvolvam um olhar ético e de respeito à dignidade humana. Temas como justiça, perdão e tolerância são sempre atuais, especialmente nesta fase de transformação em que vivemos, movidos pela pressa e pelo individualismo.”

O posfácio, por sua vez, leva a assinatura do acadêmico Daniel Blume, de cujo texto extraio o seguinte fragmento:

Por Trás da Arrogância trata de pessoas no contexto da complexidade humana, marcada por contradições. O livro também apresenta traços autobiográficos. Em muitas passagens, o autor aponta ou confessa suas próprias idiossincrasias, defeitos, vícios ou virtudes. Em A Águia e o Corvo, desabafa: ‘Diante de um problema, portanto, só sei remoer, só sei sofrer, povoando a minha mente de pensamentos desqualificados que terminam por me fragilizar, deixando transparecer que, ao contrário do que prego, não sou estoico coisa nenhuma e que, às vezes, diferentemente da águia, desço além do necessário, tornando-me presa fácil aos corvos da vida’.”

Os leitores certamente perceberão que o ser humano sempre foi o epicentro das minhas reflexões. Há crônicas para os mais diversos interesses: abordo a ignorância (A Glamourização da Ignorância), o debate (É Preciso Qualificar o Debate), a felicidade (A Felicidade Não é Uma Opção), a liberdade (Liberdade tem Limite) e a empatia (A Vida dos Outros Importa). Discuto o aprendizado (A Vida é Uma Escola), a virtude (A Virtude Pode Ser Ensinada?), a simplicidade (A Vida do Simples é Boa), a idolatria (Aos que Idolatram Gente Ruim) e das origens (Casa de Pai).

Reflito ainda sobre a velhice (Caturrices de Velho), a mentira (Consumidores de Mentiras), o oportunismo (Convicções Oportunistas), a intolerância (Dias de Intolerância), as dificuldades (Dias Difíceis) e o amor (É Preciso Amar as Pessoas). Trato dos excessos (É Preciso Ter Cuidado Com os Excessos), da resistência (É Preciso Resistir), dos afetos (É Proibido Desperdiçar Afetos), da discriminação (É Proibido Discriminar), dos egos (Egos Descontrolados), do erro (Errar é Humano?), da gentileza (Gentileza, um Toque de Classe), do sofrimento (Haverá Sempre uma Dose de Sofrimento), dos sonhos (Não Custa Nada Sonhar e Os Sonhos Não Envelhecem), do arrependimento (O Momento Certo do Arrependimento), do perdão (O Perdão é Arrebatador) e da insensatez (O Vírus da Insensatez).

É isso.